A importância do piso plano na movimentação manual de materiais

No final do ano precisei resolver um assunto relativo à utilização de plataformas niveladoras em um local em que o desnível a ser vencido entre o piso do armazém e o assoalho do veículo era de 0,43m no caso mais favorável (veículo mais baixo).

Esse desnível, considerando niveladoras com mesa de 3,00m (rampa útil de 2,80m) e piso totalmente plano, resulta numa rampa maior que 15% na niveladora, que é inviável de ser vencida com transpaleteiras hidráulicas manuais.

Considerando a inviabilidade do aterro do pátio e visto que o piso a ser construído ligava-se a um outro já existente, tínhamos que resolver o problema localmente.

Uma solução seria fazer o próprio piso do armazém com uma certa rampa, de modo a se ganhar altura no sentido das docas, e desse modo, reduzir a inclinação da niveladora até um máximo de 8%.

Outra, seria empregar niveladoras com mesas maiores que contribuissem para “aliviar” a rampa.

Porém, qual seria a rampa possível no piso do armazém sem que houvesse implicações ergonômicas, visto que os trabalhadores empurram/puxam páletes de até 700kg de carga usando transpaleteiras hidráulicas manuais?

As normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho não citam explicitamente e nem recomendam as inclinações máximas permissíveis para trabalho manual.  Vale então o bom senso do analista.

Iniciei as análises calculando qual seria o acréscimo de esforço decorrente da declividade do piso na atividade de transportar os páletes.   Para isso utilizei um dinamômetro engatado no braço da transpaleteira, de modo a medir o esforço do operador ao puxá-la.

A conclusão a que cheguei é que 1% de declividade já eleva o esforço em 35%.

Medi também a força necessária para tirar da inércia uma boa transpaleteira manual carregada com um pálete de 700kg. Essa força é de ~20kgf. Isso significa que o esforço necessária subiria para 27kgf.  Após tirar a transpaleteira da inércia esse esforço se reduz e se mantém constante durante o restante do percurso.

No caso em questão, o esforço de 27kgf era aceitável tendo em vista a quantidade de páletes a ser movimentada diariamente e a quantidade disponível de empregados, o que fez com que uma tolerância extra por fadiga não deixasse a operação inviável.

O que fizemos foi utilizar ambas as soluções em conjunto. Desse modo, o piso ligeiramente inclinado possibilitou que se reduzisse o desnível entre este e o piso dos veículos, sendo a diferença suprida por uma niveladora de mesa longa, que ofereceu uma rampa menor que os 8% que havíamos estabelecido como limite.

É preciso ter em mente porém, que uma solução como essa não deve ser adotada sem um estudo prévio de viabilidade e ergonomia, visto que a rampa máxima indicada para transporte de páletes através de transpaleteiras manuais é de apenas 3% segundo normas OSHA (Occupational Safety and Health Administration – agência que cuida do assunto nos EUA).  

 

Rampa máxima em niveladora para movimentação manual


Qual a rampa máxima em uma niveladora, que pode ser vencida por um homem ao transportar um pálete utilizando uma paleteira hidráulica manual?

Tive que responder essa pergunta para solucionar um problema relativo à movimentação de páletes, em uma área de piso elevado que precisará ser expandida em 7,70m e cujo desnível atual é de 1,30m em relação ao pátio, que apresenta uma rampa positiva de 2,5% em toda sua extensão. Por esse motivo, se o piso elevado mantivesse a horizontalidade perfeita ao longo da expansão, o desnível entre doca e pátio, ficaria menor em 0,20m.

O problema é portanto, determinar qual o comprimento de uma plataforma niveladora frontal que possa vencer o desnível entre a doca e um caminhão com 1,34m. e que possibilite a movimentação de páletes através de paleteiras manuais.

O que diz a Norma Regulamentadora?
Eu determinei teoricamente que uma rampa de 1% já eleva o esforço de movimentação em 35%. Em seguida consultei as normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho mas estas não citam explicitamente e nem recomendam as inclinações máximas permissíveis para trabalho manual.

Segundo o Materials Handling Institute, a rampa máxima recomendável para movimentação de páletes com paleteiras manuais através de uma niveladora, é de apenas 3%.

A resolução do problema

O problema foi resolvido através de testes práticos utilizando-se um dinamômetro acoplado à manopla da paleteira e um pálete com peso conhecido e igual àquele que será movimentado na prática.

Desse modo pudemos registrar a força necessária para tirar esse pálete da inércia, bem como a força necessária para movimentá-lo em pisos com diversos graus de rampa.
Conhecendo a força necessária para movimentá-lo em condições ergonomicamente viáveis, concluímos que poderíamos estabelecer uma rampa de 1% ao longo de todo o piso elevado (atual e extensão), o que resultará num desnível entre doca e pátio mais favorável.

A partir do novo desnível doca-pátio calculamos qual o comprimento ideal da niveladora, de modo a atender os caminhões de 1,34m de altura com rampas confortáveis aos operadores.

No presente caso, a niveladora precisará ter 2,82m de comprimento útil, que resultará numa rampa de 3,0% a ser vencida.

É preciso lembrar porém, que durante o carregamento do veículo poderá haver uma variação de até 2,0% nessa rampa, em função da distribuição irregular da carga sobre a carroceria em relação ao eixo traseiro do veículo.

Um pouco sobre o modo como eu trabalho…

Há algumas semanas fui convidado pelo Millor Machado, um dos sócios dos sites Empreendemia e Saia do lugar, para escrever um texto com a minha história de empreendedorismo.
Ontem eu tive a grata surpresa de vê-lo publicado! Se quiserem ler o texto sigam o link para o Saia do Lugar e prestigiem o pessoal do “Ovo engravatado” que eles merecem.

Aqui eu gostaria de complementar contando o meu jeito de trabalhar:

Em seu livro “World Class warehousing and material handling” Edward Frazelle escreveu que “Infelizmente, as receitas para muitos armazéns doentes são prescritas e implementadas sem muito exame ou teste”.

O diferencial da minha empresa é justamente contrapor-se à evidência descrita por Frazelle, utilizando o conceito de intervenção mínima para:

  1. Fazer nascer um armazém saudável (pré-natal);
  2. Fazer a profilaxia dos armazéns existentes para que não fiquem “doentes”;
  3. Curar aqueles que apresentam algum tipo de problema, usando o remédio(s) certo(s) na dose certa.

O projeto de uma operação logística (fazer nascer) seja um Centro de Distribuição, um almoxarifado, ou um terminal de cross-docking tem peculiaridades de planejamento e de tempo, e sobre eles falarei em outro momento.

Identificar os sintomas
Em relação às operações já em funcionamento eu acredito que um trabalho de assessoria deva ser feito da forma que resulte na máxima eficácia, sem partir de cara para soluções mirabolantes e altamente tecnológicas. “Back to the basics”, “Menos é mais”, “Simples e funcional” são frases que eu aprecio.

E mais uma vez usando uma analogia com termos médicos: nada de deixar o paciente em longas recuperações. O paciente tem que andar pelas próprias pernas rapidamente.
Do mesmo modo que um médico, para que o projeto ou “tratamento” tenha sucesso é preciso identificar os sintomas do paciente através de:

  • Observação visual
  • Diálogo
  • Uso de instrumentos
  • Testes e análises

É fundamental iniciar pelo entendimento do negócio do cliente, identificar o que é preciso medir ou dimensionar, levantar os dados necessários, tratar e analisar adequadamente as informações provenientes desses dados.
A partir daí utilizo meus conhecimentos acadêmico e prático para formular um diagnóstico, e só depois disso prescrevo a receita adequada.

Nesse processo é preciso ficar atento e ter a sensibilidade necessária para perceber a realidade do cliente, as limitações ou restrições existentes nas instalações da empresa e de que modo essas restrições poderão ser sanadas, de que modo a equipe do cliente poderá contribuir, qual a capacidade de investimento da empresa, quais são as suas perspectivas de crescimento, quais as características do mercado em que atua…

E como dar as boas notícias ao cliente?
(quase sempre são boas)

É preciso comprovar o diagnóstico de modo a poder justificar as propostas de mudanças e que delas possa se esperar resultados concretos.
É preciso mostrar o retorno sobre os investimentos propostos e apresentar as expectativs de aumento de receita e da percepção de valor que os seus clientes poderão ter. E sempre que possível também as expectativas de redução de custo.

Uma vez que esses cuidados tenham sido tomados na abordagem, no desenvolvimento do trabalho, na apresentação, e na implementação, os riscos de “rejeição” são extraordinariamente reduzidos e a intervenção terá sido bem sucedida.